Hudson Cunha
Antes de adentrar a esta análise, é necessário observar que a Bíblia sofreu e sofre alterações e versões de acordo com os desejos, pressões do meio e dos principais dirigentes. A cada versão publicada, redações são alteradas em vários versículose em espaços temporais menores, menos de uma década atualmente.
Nota-se que há sempre uma força do presente alterando o conteúdo original da Bíblia.
E a transliteração sempre tem falhas, dado que os originais vêm do hebraico e do grego, cuja tradução é sempre aproximada e levam as peculiaridades do tradutor e seu meio.
E versões equivocadas da Bíblia facilmente, no que diz respeito aos animais, levam a versões especistas, hierárquicas e antropocentristas, como demonstraremos.
Para desenvolver o trabalho, abordaremos os principais momentos bíblicos, tais como a criação, o Paraiso até a queda, o dilúvio e sua consequência, o êxodo e seus alimentos, a legislação mosaica, as atitudes e visões dos profetas bíblicos, o ministério de Jesus e os atos dos apóstolos, a visão pauliana, bem como com maior destaque a previsão do novo mundo e novos céus, constante em Isaias, apocalipse e diversos outros livros bíblicos.
OBJETIVOS - Pretendemos três objetivos com o nosso trabalho:
1º) polemizar com os que dizem que o Cristianismo propõe um trato com os animais de submissão, voracidade e violência, de visão especista, antropocêntrica e hierarquizante, embora alguns cristão justifiquem a crítica, como o próprio Papa Francisco, em sua encíclica Laudato Si’.
2º) mostrar a perspectiva Cristã em relação aos animais e à natureza;
3º) acusar que há os pastores da morte que preferem por motivos que serão expressos manter as condições constantes em livros bíblicos já ultrapassados pelos posteriores.
CRIAÇÃO E A TRANSLITERAÇÃO DOS TEXTOS BIBLICOS: A CRIAÇÃO SEM HIERARQUIA - A polêmica começa na descrição da criação do mundo, as versões dos versículos 1:26 e 1:28, na versão, tradução, do termo iurdi.
“Gênesis 1:26. Façamos o homem a nossa imagem, conforme à nossa semelhança, tenha ele domínio (ou reine ele) sobre os peixes e os animais domésticos, .... “Uma visão de domínio e de reinar.
Quando se faz esta versão, como aqui apontada por Fabio Chaves, a tradução leva visão especista, hierárquica, antropocêntrica, pois coloca o homem como domínio/reino sobre os animais. Assim traduz, que melhor tradução seria “descerão”, dado que a palavra domínio tinha a palavra “shalthanhou” ou “mashei” e não yirdu. E aí apresenta a sua versão dos versículos citados.
Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança; e descerão para (a condição de) os peixes do mar, para os rebanhos e para toda a terra e para todo réptil que rasteja sobre a terra.
“E abençoou-os Deus e lhes disse Deus: fecundem-se, tornem-se muitos, encham a terra e preservem-na; e desçam para (a condição dos) peixes do mar, e para as aves dos céus e para todo animal que rasteja sobre a terra”.
A mesma questionável tradução, transliteração, ocorre quando se vai verter o texto do versículo Gênesis 2:15, onde se traduz “shemar”, guardar, como um mandar com ares de superioridade, sendo que guardar significa proteger, vigiar, ser como que mordomo, da obra de Deus no sentido bíblico do termo, logicamente.
QUANDO DA CRIAÇÃO: ALIMENTO DOS HOMEMS FRUTAS E DOS ANIMAIS ERVAS.
É bom salientar que quando da criação, tanto na Bíblia Católica, como na protestante, consta que os homens e os animais não comiam carne, os homens frutos e os animais ervas (está em Gênesis 1.29-1.30).
QUEDA - HOMENS PASSAM A SE ALIMENTAR DE ERVAS. Quando da queda, houve uma alteração nos alimentos para o gênero humano, ele passaria a viver de ervas do campo (Gênesis 3:18). E assim foi até a 10ª geração, quando ocorreu o dilúvio.
DILÚVIO - FALTA DE VEGETAIS E CARNE COMO ALIMENTO- O Dilúvio teria consequência no planeta: afetou reprodução vegetal, houve escassez. A bíblia relata que, então, Deus permitiu ao homem comer carne dos animais e ao mesmo tempo colocou aversão e medo dos animais em relação aos humanos. Seria uma autorização temporária, que se tornou permanente para muitos.
E, nesta época, também se iniciou uma prática, por Noé, de realizar holocaustos de animais, o que durou até o ano 70 depois de Cristo, quando foi destruído o Templo de Jerusalém, onde previam os costumes, e depois a legislação mosaica que era o único local onde teria holocaustos.
ÊXODO - O PERÍODO DO MANÁ DIVINO - Quando os judeus saíram do Egito, em sua epopeia no deserto, retrata a Bíblia que os filhos de Israel eram alimentados com maná que caia dos céus, um alimento era misto como semente de coentro branco e sabor como bolos de meu (Gênesis 16:31), com poder nutritivo de carne e pão.
Mas, em determinado momento, da peregrinação de 40 anos, houve uma reivindicação de carne e outra alimentação como era no Egito (Gênesis 11: 1-2), o que irritou a Deus.
Deus mandou codornizes para atender a voracidade deles, mas a contragosto, tanto que alguns foram punidos com uma praga terrível (Num 11:33).
PROFETAS VEGETARIANOS - Se analisarmos os profetas bíblicos e fiéis mais inspirados quase todos desenvolveram ideias e princípios em busca da justiça social, na defesa do trato civilizado dos animais.
A questão animal não pode ser vista isolada da proposta bíblica, devemos ver a luta contra a injustiça em todos os profetas, que, alguns deles, além de recomendarem alimentação com base em frutos ou outros vegetais, condenavam o abandono de crianças, de viúvas e outros necessitados. E apontavam para um futuro divino onde não haveria pobre, todos teriam saúde, alimentariam condizentemente e viveriam em paz e felizes por muitos anos.
JESUS CRISTO - Os Cristão deram um impulso neste modo de ver esta mensagem bíblica, principalmente, após Cristo, além condenar as riquezas e expor sua missão “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e restauração de vista aos cegos , pôr em liberdade os oprimidos e apregoar o ano aceitável ao Senhor”(Lucas 4:18), falou sobre os principais mandamentos: “Ame ao Senhor, o seu Deus de todo coração, de toda a sua alma e de todo seu entendimento. E, o outro mandamento: Ame o seu próximo como a si mesmo. (Mateus 27:20).
DIMENSÃO DO AMAR A DEUS - E para o Cristão amar a Deus, é amar também sua obra que tem caráter divino. É amar a natureza e todas as criaturas. É um biocentrismo expandido até a natureza em geral.
FUTURO, CONFORME ISAIAS, E É A PERSPECTIVA GERAL NÃO SÓ PARA OS ANIMAIS - Para o Cristão, são perenes os compromissos constantes no mundo futuro previsto por Isaias e em Atos dos Apóstolos 4:32 de que “Ninguém deve ser considerar exclusivamente suas as coisas que possuía”, e, em Atos 4:34, de a “cada um, conforme a sua necessidade”. Bem como, as perspectivas de uma nova sociedade, do reino de Deus, em que não haverá nela criação para viver poucos anos (Isaias 65.20), quem edificar uma casa terá direito tê-la (Isaias 65:21), ninguém trabalhará em debalde terão o fruto do seu trabalho (Isaias 65.23) Haverá paz, prosperidade e justiça para todos ((Isaías 2:4, 9:6-7, 11:3-5, 65:20-25, 66:1-2, Miquéias 4:3-5, Malaquias 1:11, Mateus 5:1 - 7:29).
Ou seja, muitos aspectos do socialismo cristão primitivo já estavam delineados, bem como a previsão de um futuro socialista.
ANIMAIS NO MILÊNIO CRISTÃO - O RETORNO AOS ALIMENTOS IDEAIS - Há previsões específicas de um futuro para os animais no milênio cristão, é o mundo de novos céus e nova terra, destacamos o que está em que Isaias, numa visão profética, diz que:
1. "O lobo e o cordeiro pastarão juntos e o leão comerá palha com o boi, pó será comida de serpente. Não farão mal nem dano algum em todo o meu Santo Monte, diz o Senhor". (Isaías 65:25). Diz mais: E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, seus filhos se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. E brincará a criança de peito sobre a toca da áspide, e a desmamada colocará a sua mão na cova do basilisco. (Isaías 11:6-8).
2. E se condenará aquele que age contra os animais e se considerará: "O que imolar um boi é como o que comete homicídio; o que sacrifica um cordeiro, como o que quebra o pescoço a um cão; o que oferece oblação, como o que oferece sangue de porco..." (Isaías 66:3).
Este é o ensinamento bíblico para ser divulgado, enfrenta e enfrentará a reação dos pastores da morte, de conservadores e de comodistas.
PODER DO CAPITAL. O poder do capital - no investimento da indústria alimentícia e no contexto dos demais investimentos no capitalismo - possui muitas ramificações, inclusive em igrejas.
Igrejas, por sua vez, cada dia mais, abandonam a autêntica mensagem cristã a trocando por uma visão que eleva a ilusão, a dominação e a exploração dos povos e dos mais simples. E, ao mesmo tempo, que, não por acaso, pastores que pregam a complacência com o domínio do capital, ocultando a mensagem do futuro cristão previsto na Bíblia Sagrada.
E, ao mesmo tempo, propagam ideologias reacionárias que tentam perenizam as condições de cativeiro das maiorias. Estes religiosos também participam do saqueio dos esforços dos trabalho dos segmento mais explorado e oprimido da sociedade.
E, no contextoda força do capital se encontram inclusive as grandes empresas do agronegócio que exploram a carne, como alimento e mercadoria que sejam economicamente lucrativa.
De empresários e seus prepostos que defendem uma produção predatória. E, também, criam ramificações que irão influir até na evolução do ciência, inclusive teológica, muitas vezes ocultando verdades sobre estas empresas, a necessidade humana de saúde com alimentação sadia e sobre a necessidade preservação da natureza, de fim do trato violento seja entre humanos seja com animais, bem como da viabilidade de concretização da esperança de alguns da rendençao das grandes maiorias que trabalham as riquezas do mundo.
PASTORES DA MORTE. Os aproveitadores do fato de as religiões estarem entre os maiores e mais lucrativo negócio do mundo, pregam em dissonância com o evangelho para ganharem ou controlarem grandes fortunas. Exemplos das fortunas destes ou controladas por estes pastores, pode ser notado na revista Forbes de 2015, quando falou das fortunas dos pastores brasileiros, Edir Macedo 950 milhões de dólares, Valdemiro Santiago, 220 milhões de US$, Silas Malafaia, 150 milhões, RR Soares, 124 milhões etc., E isto há 6 anos, enriqueceram muito mais.
São pastores da morte, sem interesse em que prevaleça a verdadeira proposta cristã. Estão interessados é em explorar fiéis e viverem com suas fortunas, enquanto os pobres fiéis morrem, matam e se matam, são submetidos a uma sociedade e céus opressivos e exploradores, sem conhecerem a doutrina cristã, e ainda são desincentivados a lutarem para mudar a situação que lhe são aversivas. Estes pastores da morte ainda são os defensores do capitalismo monopolista que oprime e explora os povos no plano internacional, e, internamente, os trabalhadores e demais segmentos mais humildes da sociedade.
E há ainda pastores, inclusive padres, que hoje contribuem para divulgar a visão arcaica de sociedade, sem a real fidelidade ao Senhor, não adotam princípios de acordo com as perspectivas futuras do Milênio Cristão e nem se comprometem em lutar pelo novo mundo e novos céus, mascaram a coerência desta luta por justiça e fé. Alguns por equívoco, outros por comodismo, outros por submissão às estruturas hierárquicas impositivas de suas igrejas
AMPLITUDE DA LUTA CRISTÃ. - A luta cristã, fundada naquela autenticidade do que propõe o texto bíblico, certamente enfrentará estes pastores morte e seus sequazes. Será uma luta pelo desenvolvimento sustentável no contexto e perspectiva da conquista de uma sociedade justa, fraterna e sem diferenças, ou seja, rumo ao socialismo ou comunismo cristão, que tem como uma das suas particularidades a convivência com unidade, vivência e amor com os animais e toda a natureza, com uma alimentação de todos os seres - humanos ou não - que não implique em mortes.
E NÓS DO PT E DA IGREJA PROGRESSISTA - Terminamos aqui com uma alerta, cabe a nós, seja dos grupos cristãos autênticos e do Setorial dos Direitos Animais do PT, debatermos esta perspectiva cristã enquanto crescemos nosso compromisso com a luta pela transformação radical da sociedade, em seu contexto no mundo do futuro de amor entre os seres, de paz e de justiça.

